Yara Tupynambá - Uma Vida na Arte

VERNISSAGE:
10 de Junho de 2019

Até 5 de julho de 2019
Segunda a sexta-feira de 9 às 19h
Sábado de 9 às 13h

Novo Endereço:
Rua Curitiba,1862 – Lourdes
Belo Horizonte/MG – 30170-122

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Uma Vida na Arte - Obras de 1957 a 2019

Textos & Críticas do Catálogo

Somos amigos, Yara Tupynambá e eu, há mais de meio século. Para os que estranharem essa tão longa data – em vista da sempre lépida pessoa que é Yara, sempre muito ativa, pintando incansavelmente sem perda de qualidade, – acrescento que nos conhecemos ainda no berçário, onde conversávamos muito sobre estética, para total maravilhamento das enfermeiras e dos outros bebês. Já então Yara resolvera ser artista, tendo de esperar um bom tempo até que Guignard aportasse em Belo Horizonte e ela se tornasse sua aluna na Escolinha do Parque Municipal. Aí nos reencontramos mais tarde, quando ela era professora de gravura e eu fui lá dar algumas aulas, naqueles heroicos tempos em que o mundo artístico era feito de entusiasmo e afeto, sem os interesses materiais e políticos de hoje. Desde essa época, mesmo morando em outra cidade, acompanho o trabalho de Yara, um dos mais destacados pintores de Minas Gerais. Sempre que se fala dela, o nome de Minas logo vem à tona, devido à estreita ligação entre as duas: Yara é, realmente, o maior cronista em pintura de seu (nosso) estado natal. Mas não cabe limitá-la, de nenhuma forma, a ele: trata-se de uma profícua artista brasileira, tout court. Seu significado é nacional.

 Esta exposição não tem o nome, nem a ambição, nem faz o exame sistemático de uma retrospectiva, que é um dever para museus; só eles possuem os espaços necessários. Ainda assim, é muito ampla e contém mais de cem obras de vários momentos, inclusive bem antigas. Muito honrada, a galeria a escolheu para inaugurar sua nova sede e caprichou sob todos os aspectos. Além deste, providenciou mais dois outros textos de apresentação – que assim são chamados apenas por tradição: desde quando Yara precisa ser apresentada? Cabe-me abrir o conjunto, talvez pela duradoura amizade. Não tenho como lhes dizer do gosto, do prazer com que saúdo nossa querida Yara, e dessa alegria resulta o tom inegavelmente informal deste texto. Mas nem por ser informal é menos sério. Além de tudo o que dirão meus colegas, mais adiante, sirvo-me da antiga e fraternal relação que estabelecemos, e dos conhecimentos privilegiados que me facultou, para dar o merecido destaque a três qualidades que se tornaram muito raras hoje em dia e Yara possui com fartura. É graças a essas qualidades que ela é quem é.

 A primeira é a gravidade, o claríssimo empenho existencial com que se entrega à criação. Para Yara, fazer arte não tem nada de ocasional ou acessório, não é uma atividade paralela a qualquer outra; é o centro de sua vida, todo o resto é que é acessório. Pode parecer um lugar comum, que se aplica a todos os verdadeiros artistas – mas não é bem assim; em alguns revela-se mais importante, visível e essencial que em outros. Nem todos possuem tamanha dedicação exclusiva. Percebe-se facilmente que a de Yara contém algo de obsessivo (o que, num artista, é um traço positivo). É impressionante vê-la, há décadas, permanentemente buscando novos caminhos, novos temas, novas abordagens, sem abandonar, bem entendido, seu fulcro: nossas Minas. Resulta numa produção rica, variada e unitária. Unitária também estilisticamente, já que uma obra de Yara se reconhece à primeira vista, por um certo lirismo assertivo. Não fica em delicadezas e meios tons: é resoluto e incisivo. O empenho existencial de que tudo isso é consequência lembra-me uma célebre carta do poeta Rainer Maria Rilke, que há mais de um século toca o coração de todos que estudam o fascinante mecanismo da criação artística. Respondendo à consulta de um jovem poeta, Rilke lhe pergunta se fazer poesia lhe é tão necessário quanto respirar; porque se não for, é melhor nem continuar. Yara preenche a exigência rilkeana: morreria se não pudesse pintar. O título dado a esta exposição fala disso: Uma Vida na Arte. Em seu caso, as duas coisas são uma só.

 A segunda qualidade é a plena posse do ofício – palavra bem mais ampla que, simplesmente, ‘técnica’. Técnica é uma destreza sobretudo mecânica que se aprende com um bom professor – e nenhum, com certeza, melhor que Guignard. Há artistas que possuem muita técnica e pouco talento, e sua obra não esconde isso. Já o ofício acrescenta a vocação, o trabalho, o tempo de serviço e depende, até, do talento; torna-se uma destreza da sensibilidade e do espírito. Existem algumas formas atuais de arte que parecem dispensar o ofício – mas só parecem; na verdade não dispensam um saber fazer que o artista tem de inventar e dominar, se não logo se percebem sua deficiência e a improvisação. Saber fazer é o que não falta a Yara. Os detalhes de obras reproduzidos neste catálogo evidenciam sua mestria tanto no desenho quanto na pintura. É um belo legado do rigoroso Guignard, que, como me contava Farnese de Andrade, obrigava os alunos a desenhar com o duríssimo lápis 6 H, que marcava o papel e não admitia correções. É oportuno frisar o domínio do desenho de Yara, sem o qual (pelo menos no campo da arte figurativa) não podem existir boa pintura nem boa escultura. Convém lembrar também que ela foi – ou é – gravadora, e que a gravura ensina precisão e paciência a quem a pratica. Muito bem armada, portanto, Yara enveredou por sua batalha da vida inteira.

 Ao longo dela, provou-se extremamente fiel a si mesma. Muitos artistas de sua geração, ou um pouco mais velhos, passaram à arte abstrata, que nos anos 1950 chegava triunfantemente ao Brasil. Não estou sugerindo que aderiram por comodidade ou modismo (sobretudo, nem de longe por comodidade: os abstracionistas eram hostilizados). Cada um foi atrás do que Kandinsky denominou “necessidade interior”, servindo-se dos recursos e instrumentos que as novas (e/ou antigas) linguagens lhe ofereciam. A necessidade de Yara (será que isso tem a ver com sua ligação original com a terra, no norte de Minas?) permaneceu sempre a de conectar-se com o mundo exterior visível. Daí sua convicta inserção no figurativismo, que nunca abandonou nem transitoriamente. Casos assim, de firmeza estética, plena posse do ofício e grave e total entrega são lições que nos ajudam a construir o mundo.

 Muito me inspiram e me servem de exemplo a seriedade e a proficiência de Yara Tupynambá. Gostaria que inspirassem todo mundo, num momento tão cheio de desmandos como o nosso.  De coisas assim andamos precisando. 

Como é bela Minas

Augusto de Lima

A pintura, o desenho, a gravura e os murais da mineira Yara Tupynambá têm suas raízes profundamente fincadas em Minas Gerais, em sua geografia, em sua história, na alma de seu povo. As paisagens montanhosas de Minas, as vegetações exuberantes do Vale do Tripuí, do Vale do Rio Doce, de Inhotim e os campos rupestres da Serra do Cipó estão vivificadas em sua obra pictórica que também recria plasticamente a história de Minas Gerais, que, no século XVIII, se confunde com a própria história do Brasil. Também seus desenhos e gravuras têm como leitmotiv Minas Gerais e seu povo.

 Yara nasceu em Montes Claros, norte do Estado, onde viveu os três primeiros anos de sua vida. Em seguida, mudou-se sucessivamente para outras cidades mineiras em decorrência da profissão de seu pai, Octávio dos Reis Gordilho, engenheiro da rede ferroviária federal. Nessas andanças, foi percebendo a multiplicidade de sua terra: costumes, paisagens, povo. Sua avó paterna, pintora, viveu com a família por dezessete anos em Paris, deixando obra considerável. Seu avô materno, Tupynambá, senhor de terras mas também intelectual, escrevia, na grande biblioteca que tinha na fazenda, crônicas que publicava na imprensa. Assim, a artista amalgama o requinte técnico da pintura da avó com a força telúrica do avô Tupynambá.

 O desenho atraiu Yara desde a infância. Quando sua família foi para Belo Horizonte, ingressou no colégio Sacré Coeur de Marie, onde se diplomou como professora do ensino médio. Sua desenvoltura com as cores e as tintas, em aulas de pintura no colégio, chamou a atenção de sua professora, que lhe recomendou estudar com o professor Alberto da Veiga Guignard, que ministrava aulas na Escola do Parque, na estrutura inacabada do que seria o Teatro Municipal da cidade, projetado originalmente por Oscar Niemeyer e modificado mais tarde por Hélio Ferreira Pinto, para se transformar no edifício atual do Palácio das Artes de Belo Horizonte. Seu pai relutou, de início, em matriculá-la em escola de instalações tão precárias.

 “Quando cheguei com meu pai na escola” – afirma a artista – “vi o professor descendo as escadas com os alunos para desenhar no parque; fiquei encantada. Era aquilo que eu queria. Não houve nenhuma formalidade no meu ingresso, nem matrícula, nem pagamento, nem apresentação de desenhos anteriores. A escola era assim. Lá íamos desenhar no parque, sentados em banquinhos, quase todas as manhãs”. Orientada por Guignard, que valorizava o desenho e a pintura de observação, Yara aprendeu a distinguir as diversas maneiras com que os galhos, as folhas e as flores se apresentam, na linha de Matisse, que dizia não pintar as coisas, mas as diferenças existentes entre elas. Yara estudou com Guignard por cinco anos e, após este período, continuou sempre em contato com o mestre na casa do médico Santiago Americano Freire, na qual ele residiu durante cerca de sete anos antes de mudar-se para Ouro Preto, onde morreu meses depois. Yara foi um dos valores que se destacaram a partir da escola livre do parque, que também pavimentou o caminho de muitos outros artistas de qualidade.

 Em 1957, a artista interessa-se pela gravura. Seu grupo viabiliza a realização de um curso que ela frequenta, durante seis meses, ministrado pela carioca Misabel Pedrosa, em Belo Horizonte. Em seguida, por recomendação da mesma, dirige-se para o Rio de Janeiro para aperfeiçoar sua técnica de xilogravura com o mestre Oswaldo Goeldi. Este a recebe informalmente em seu ateliê/sala de aula, localizado no terceiro andar da Escola Nacional de Belas Artes, entendendo que alunos de Guignard não tinham documentos oficiais. Ali, ela trabalha intensamente durante três meses ao lado de Adir Botelho, Newton Cavalcanti, Samico e outros. Na sequência, a orientação continua por mais de um ano e meio no pequeno ateliê do artista, no Rio, para onde Yara se dirigia a cada dois meses com seus trabalhos feitos na capital mineira. Com Goeldi, foi iniciada na criação de gravuras a cores, impressas sobre papel japonês, modalidade em que Goeldi era um mestre. Os resultados das lições de Goeldi e da dedicação da artista não tardam a aparecer: primeira exposição de gravuras na Piccola Galeria, no Rio de Janeiro, organizada por Goeldi, e a conquista do primeiro prêmio de gravura no Salão Municipal de Belas Artes de Belo Horizonte, em 1958.

 Obras da artista em diferentes técnicas gráficas integraram os mais importantes salões de arte do Brasil e são expostas extensivamente em mostras coletivas ou individuais em numerosos países. Em 1961, Yara torna-se professora de gravura na que hoje é Escola de Artes Visuais da Universidade Federal de Minas Gerais, ao mesmo tempo em que passa a interessar-se pela arte pública. Sua primeira obra de grandes dimensões, de 4 metros de altura por 10 metros de largura, foi o painel Desbravamento do Rio São Francisco, realizado em 1967 sob encomenda de uma instituição bancária que o doou, em 2004, para a UFMG, na qual se encontra instalado no auditório da Faculdade de Educação. O painel, realizado em preto e branco, amarelo e ocre, conserva, mutatis mutandis, elementos da linguagem gráfica da artista. O segundo, sua obra mais ambiciosa, tem como tema a Inconfidência Mineira e foi realizado num período particularmente tenso dos anos de chumbo. Afirma Yara:  “Quis pintar a história da liberdade humana através da Inconfidência Mineira”. Com seus 4 metros de altura por 40 de largura, nas mesmas cores do anterior, é uma presença poderosa no saguão da reitoria da UFMG. Inclui, em sua parte final, uma frase cunhada pelo então reitor da Universidade, Gerson Boson: “Condição primeira para cultura é liberdade”. Yara pintou a frase temendo ser presa. Em 1969, Boson foi afastado do cargo e substituído por um Coronel. Mas o mural permaneceu com a frase do reitor.

  Nos anos seguintes, realiza numerosos murais em residências, estabelecimentos comerciais, prédios públicos e residenciais, obras que contribuíram para torná-la uma das figuras mais emblemáticas da arte mineira. Em seguida, seu trabalho tem como fulcro a História de Minas. Cria então grandes murais, sete dos quais foram tombados pelo Patrimônio Histórico Cultural de Belo Horizonte.

 Na década de 70, o preto e branco que predominou nas obras da artista cede espaço, paulatinamente, para uma paleta mais vibrante em trabalhos inicialmente realizados com pastel a óleo, carvão Conté, sanguínea e, posteriormente, tinta acrílica sobre tela. Tendo passado a infância e a adolescência no interior de Minas, Yara impregnou-se profundamente das culturas locais e estas acabam por aflorar em suas obras. Surgem então recriações de festejos do sertão, congados, catopês, caboclinhos, festas de São João com balões e mastros, oratórios com santos em cidades imaginárias e flores do cerrado de Diamantina.

 Vivências mais recentes fazem brotar em suas telas, transfigurada, a figura de Marília, personagem lírica do poeta inconfidente Tomás Antônio Gonzaga, dando origem a uma grande série sobre o assunto. Os temas se multiplicam, incluindo recriações da obra literária de Carlos Drummond Andrade, feita com o auxílio do poeta. Uma incursão prodigiosa em reservas ecológicas de Minas Gerais, nas matas, em campos rupestres, em Inhotim, resulta numa coleção de pinturas que se insere no que Yara produziu de melhor em toda sua carreira.

 Yara adentra a floresta do Rio Doce e se encanta com sua beleza da “luz filtrada entre os galhos, a exuberância da vegetação e o silêncio profundo só cortado pelo pio das aves”, segundo declarou por ocasião de sua exposição na Casa Fiat de Cultura. Na floresta do Rio Doce, fascina Yara “a grandiosidade das imensas árvores e das águas das enormes lagoas cobertas de nenúfares, margeada por altas plantas aquáticas com pendões brancos”. Depois, na Serra do Cipó, é surpreendida por “campos rupestres cobertos de flores de exóticas engenharias, velósias gigantes e enormes pedras que compõem aquela paisagem ciclópica”. E, finalmente, foi ver e recriar a natureza ordenada pela mão do homem em Inhotim, localizada em Brumadinho, cidade recentemente castigada pelo terrível rompimento de uma barragem de rejeitos de minérios, um dos maiores desastres ambientais do mundo.

 Fechando sua visão sobre a natureza, que é um apelo visual à sua conservação, Yara pinta os parques municipais de Belo Horizonte, concluindo assim um ciclo que vai da floresta intocada até a natureza trabalhada pelo homem. Voltando ao estúdio, inicia a série “Artistas famosos visitam meu atelier”, na qual mistura “imagens amadas e apreendidas dos grandes mestres” com cerâmicas, oratórios, ex-votos, vasos com flores e esculturas populares de seu local de trabalho.

 Esta mostra inclui mais de cem trabalhos realizados por Yara ao longo de sua profícua existência. Trata-se de uma síntese de toda sua obra. Concluindo uma conversa que tivemos há pouco, ela confessou: “Penso que dificilmente poderei reunir outra vez tantos trabalhos em uma única exposição. Deixo isto para o futuro. Portanto, esta é uma exposição fundamental para minha carreira”. 

Yara é como Minas: são muitas e todas são personagens inesquecíveis. Quando alguém vai ao seu ateliê, antes mesmo de tocar a campainha, sabe que, quando sair, levará consigo novos conhecimentos. Com voz firme, dicção perfeita, muita cultura e um jeito seguro de dizer e ensinar com altruísmo o que sabe sobre arte ou dissertar sobre um óleo que o visitante trouxe para exame, nossa muralista maior despeja simpatia e erudição. Este jeito espontâneo, amigo e voluntarioso só é encontrável em pessoas experientes que passaram por longas vicissitudes na vida e transmitem ao outro a segurança cultural que tantos procuram. Se o leitor duvida, pergunte-lhe algo sobre arte e sua história, aquela de Minas Gerais e suas artes populares, ou quaisquer pintores consagrados pelo mundo afora.  Como a sedutora conversa será rendosa, ela falará por que imortalizou em pintura o nosso congado, nossas fauna e flora, as histórias da Inconfidência e da siderurgia mineiras e falará sobre a paixão de Carlos Drummond de Andrade ao ver materializado em painel seu poema “A Mesa” sobre a família do nosso bardo maior. Por último, ela esclarecerá por que a arte ocidental teve o caminho que teve, por que o cubismo não podia ter nascido antes do impressionismo e sobre o fundamental legado de Dürer, em quem é especialista.

 Montada no dorso de um leão desde a juventude, Yara sempre soube ser senhora de si mesma, dona de seu próprio nariz, senhora absoluta em sua própria casa e sabedora do que queria da vida. Para isso, começou com o nosso santo Guignard, que lhe recomendou desenhar, desenhar e desenhar antes de pegar em um pincel, aquarela ou cores a óleo. Ela aprendeu com ele que desenhar é a base de toda boa pintura e que essa é a assertiva de quem quer ser pintor e artista. São qualidades diferentes: pintor muita gente é, mas artistas, aqueles reconhecidos pelo outro como tal, são poucos. Se o aprendiz tem talento e com a asseveração que o aprendizado da técnica do desenho lhe dá, construirá um conjunto pictórico digno e, décadas depois, poderá fazer uma grandiosa exposição e chamá-la de retrospectiva. Acredite: é um árduo caminho.

 O que vemos neste resumo de mais de cem obras de Yara Tupynambá são belas pinturas de grandes formatos, que conduzem o espectador à reflexão de seu humanismo, representado pela onipresente figura humana, tão frequente nos artistas humanistas, a dançar, a trabalhar sobre uma cerâmica ou sobre uma roca e a voar sobre a eterna Ouro Preto, como se fossem anjos da guarda de Vila Rica. Herdeira de um dos mais importantes legados transmitidos do mestre Guignard, a transparência está presente em vestidos diáfanos ou em paisagens interioranas com a luz solar focalizada.

 Em certa época de sua vida, lá pelos anos 1970, ela sai da deslumbrante fase do branco e preto, do solene claro e escuro, na qual nota-se desde sempre aquilo que hoje interessa pouco aos jovens pintores: a composição bem equilibrada, com ritmo e o cuidado com o número de ouro. Yara então cria aquilo que todo artista precisa gerar: suas próprias cores. Isso significa que hoje é possível identificar seus trabalhos de uma mirada de longa distância ou até mesmo por intermédio de um olhar de soslaio só pelo vulto das suas cores. Além disso, apesar de haver, às vezes, anos separando uma pintura da outra, é impossível não perceber a unidade da exposição. Unidade é aquilo que o espectador olha, percebe a dimensão dos trabalhos do artista pela similitude, coerência, harmonia e homogeneidade e compreende com o coração desarmado intelectualmente que todos são diferentes, mas são todos iguais, esse paradoxo pictórico que nos deixa intrigados e perplexos frente à qualidade das obras.

 Esse mesmo espectador descobrirá que na sua trajetória de artista e guerreira cultural se devem incluir outras técnicas artísticas. Podem-se ver pela cidade de Belo Horizonte painéis com diferentes técnicas e conteúdos em dezenas de halls de prédios, em coleções particulares, no campus da UFMG e pelo Brasil afora. Esses murais são o resultado de uma vida dedicada ao desejo dela. Desejar é seguir as estrelas. E ela, montada naquele leão, seguiu a sua estrela a cada momento e, insatisfeita com uma conquista, alcançava outra estrela e outra e outra e assim foi pintando e construindo a sua biografia de artista.

 As xilogravuras são outro longo capítulo de sua história de vida cheio de páginas e mais páginas escritas com formões e estiletes, agregadas com a sua afeição pelo seu mestre Goeldi, com quem aprendeu a lidar com o negativo da madeira.  Deste capítulo pode-se também fazer outra exposição e ter a certeza da admiração de quem não as conhece. Sua série de gravura “Deus por que me abandonaste?” expõe a angústia da pergunta que perpassa gerações de seres humanos. Quem não sentiu pelo menos uma vez a sensação de abandono e, vendo essas gravuras, não se viu como se elas fossem um espelho de sua própria carência?

 Como uma filha pródiga, Yara voltou recentemente ao Parque Municipal de Belo Horizonte, pintando aquilo que o velho mestre fez nas décadas de 1940 e 1950. Na paisagem objetiva, percebe-se certo descaso pelo seu paisagismo, mas os trabalhos da artista deixariam santo Guignard orgulhoso da aluna que teve. Com certeza, ele notaria que ela aprendeu tudo que ele tinha para ensinar e, como um Abaporu, devorou seus ensinamentos e se transformou em uma sólida artista.

Como todo jovem artista de meu tempo, comecei a desenhar sob a orientação de Guignard, no Parque Municipal de Belo Horizonte.

Ali aprendemos a ver a diferença das folhagens das árvores, o movimento dos galhos e a presença de pessoas neste cenário bucólico. Isto nos anos 1955 e 56.

Depois, já dentro da escola, exercitamos o desenho com o modelo vivo e o desenho de criação, a partir da memória de nossa vivência.

A consciência de que Minas seria meu grande tema aconteceu à medida que fui criando paineis históricos, e isto me fez trabalhar sobre ícones de nossa cultura: figuras de bandeirantes, índios, figuras da história, santos, oratórios, flores do sertão, cidades, objetos encontrados em antiquários e que pertenceram a nosso passado. Conhecer o Vale do Jequitinhonha em uma viagem de estudos me faz trazer de lá figuras de tecelãs, ceramistas, crianças do Vale e objetos produzidos pelo povo.

A presença de uma Minas moderna se faz através da série de Siderurgia.

Meu contato com a natureza é renovado quando inicio uma série ecológica, visitando regiões diversas e querendo mostrar a diversidade e importância de nossa flora: a presença no Vale do Tripuí, na Floresta do Vale do Rio Doce, nos Campos Rupestres da Serra do Cipó, na natureza trabalhada no Inhotim e, finalmente, fechando este ciclo, uma visão de nossos parques municipais: a natureza usada por todos.

As vivências com artistas que amo levaram-me, também, a apropriar-me de algumas de suas figuras, inserindo-as no ambiente de meu ateliê.

Este é um pequeno roteiro que serve à presente exposição, evidentemente com ausências de outros períodos, pela impossibilidade de encontrar meus quadros de fases diversas, espalhados pelo Chile, Argentina, São Paulo, New York, Paris, Londres, Tóquio, Milão e muitas cidades brasileiras.

A obra de arte é o resultado da expressão e da construção mais sublime e elevada do ser humano. O artista materializa na obra todo seu sentimento, sua emoção e percepção de mundo de forma única, singular, diferenciando-os dos demais. Assim, cada artista cria sua própria linguagem e identidade com características próprias, embora, por vezes, possam existir também influências de outros artistas no resultado final.

Yara Tupynambá mergulha sua respeitada obra narrando a rica e libertária história de Minas Gerais. Assim, sua arte, representada majoritariamente por pinturas em mais de 60 anos de trabalho, evidencia um relevante acervo que conta nossos costumes, festas populares, folclore, riquezas minerais, montanhas, história, artesanato e barroco, além da valorização da mulher na sociedade. Minas Gerais foi poeticamente descortinada por suas tintas e pincéis e representada nas pinturas e murais espalhados em órgãos públicos e coleções particulares, alguns deles tombados pelo patrimônio histórico. Destaque para “Inconfidência Mineira”, na reitoria da UFMG; e “Desbravamento do Rio São Francisco”, na Faculdade de Educação. A arte de Yara pulsa forte no coração de Minas.

Yara iniciou na arte com as aulas no Parque Municipal de BH, na década de 1950, com o mestre Guignard. O mestre persistia muito com os alunos o exaustivo exercício do desenho e o poder de percepção e observação. Na mesma escola, teve aulas de modelagem com Franz Weissmann. Procurando aperfeiçoar, estudou gravura com Misabel Pedrosa. O custo deste curso foi conseguido por Yara e outros alunos que pediram ao então prefeito JK que se sensibilizou com a gana de aprender dos jovens. Sempre almejando conhecimento, procurou Goeldi na Escola Nacional de Belas Artes/RJ, onde permaneceu uma temporada de grande aprendizado, quando teve oportunidade de trocar experiências e conviver com outros mestres da gravura brasileira como Samico, Grassmann e outros. Voltando a BH, perseverante, fez um concurso e ganhou uma bolsa de estudos no Pratt Institute, em Nova York, e para lá se foi. No seu retorno a BH, Yara se torna professora titular na recém inaugurada Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais. Muralista maior, sua carreira artística registra participações em salões e prêmios importantes de nível nacional.

Assim, diante da brilhante carreira que trilhou e pela sólida ligação de sua obra ao corpo e à alma de Minas Gerais, nenhum nome mais adequado, dentro deste contexto, para inaugurar, com uma bela exposição retrospectiva, com obras da década de 1950 aos dias atuais, o novo espaço da Errol Flynn Galeria de Arte, no bairro de Lourdes, na rua Curitiba, em 10 de junho próximo. Yara Tupynambá, por toda sua dedicação, amor e inigualável contribuição à cultura e à história de Minas, merece todo reconhecimento com muita dignidade e os nossos cumprimentos e agradecimentos. Seu exemplo de luta e busca incessante pelo conhecimento que culminou neste vitorioso caminho são motivo de inspiração para as novas gerações e de alegria para nós mineiros. Assim como outros grandes artistas brasileiros e internacionais, o tempo destinará à Yara Tupynambá o valor e o peso que ela e Minas fazem jus.

Natural de Montes Claros, MG.

Estudos artísticos com Alberto da Veiga Guignard e Oswald Goeldi e bolsista do Pratt Institute, em New York.

Professora titular da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde foi diretora. Participante dos Salões de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Brasília, Paraná, Porto Alegre, Campinas, Ouro Preto e Pernambuco. Participante das Bienais de São Paulo e de Salvador. Sala especial na Bienal de São Paulo, no Salão Global TV Globo, em Belo Horizonte, e Salão da Gravura, em Ouro Preto, MG.

Realizou exposições individuais em Belo Horizonte: Galerias Guignard, Palácio das Artes, AMI, Teatro da Cidade, Atelier Cor de Minas, Espaço Cultural da UNI-BH; em Juiz de Fora: Galeria Assir Artes e Funalfa; em Tiradentes: Galeria Oscar Araripe; Rio de Janeiro: Galerias Chica da Silva, ICBEU e Museu Nacional de Belas Artes; em São Paulo: Galerias Danúbio, Sobrado, Casa das Artes e Portal; em Brasília: Galerias Oscar Seráphico, Performance, Teatro Nacional e Espaço Cultural da Câmara Federal. Exposições em Espaços Culturais da Caixa Econômica Federal em São Luís – MA, Ituiutaba, Juiz de Fora e Casas da Cultura em Sete Lagoas, Nova Era e Uberlândia, MG. Exposições individuais internacionais nas Galerias Hourian, em São Francisco, EUA; Institute of Education, Londres; Galeria Inter-Art, Paris; Brazilian Cultural Institute, New York; e Galeria de Vilar, Porto, Portugal.

Artista selecionada para inúmeras mostras nacionais em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre e Curitiba. Selecionada para representar a arte mineira em todas as grandes coletivas organizadas por entidades oficiais como Palácio das Artes, CEMIG, Secretaria da Cultura e Fundação Newton Paiva Ferreira, etc. Participante de mostras internacionais como I Certame Latino-Americano de Xilogravura, Buenos Aires, Argentina; Artistas Brasileiros em Indiana e Ohio, EUA; Artistas Brasileiros em The Brazilian American Cultural Institute, Washington; Artistas Brasileiros na Cité Universitaire, Casa do Brasil, Paris; Artistas Brasileiros Selecionados para o Acervo do Museu Skopje, Iuguslávia; Artistas Brasileiros na Nigéria; Artistas Brasileiros no BAC, New York. Participante das mostras da Xilon Internacional (de dois em dois anos percorre a Europa). Selecionada para a Bienal Internacional de Gravura sobre Madeira em Ivry, França.

Incluída em numerosos livros sobre a arte brasileira, como Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, Roberto Pontual; A Escola Guignard na Cultura Modernista, professora Ivone Vieira; Tiradentes, edição da Caixa Econômica Federal e Ministério da Educação; Arte Brasileira Contemporânea, Júlio Louzada; Panorama da Arte Brasileira, Várias Tendências, RMB; Artes Plásticas no Brasil, v. 10 e 11, Júlio Louzada; Anuário da Arte Brasileira, 2001; 60 Obras Selecionadas – Gravadores Brasileiros, ICBEU; Gabinete de Arte, Prefeitura de Belo Horizonte, 2000; Vários Perfis da Arte Brasileira, RBM; Um Século de Artes Plásticas em Belo Horizonte, Comarte e Fundação João Pinheiro; Brasil 500 Anos, Artes Plásticas, RMB; Brazil Art Show, Jardim Contemporâneo Ltda.

Livros editados sobre sua obra: Pelos Caminhos de Minas, 200 p., 2007, com apoio da Lei Rouanet; Murais Tombados no Campus da Universidade Federal de Minas Gerais, publicação da UFMG; A Mesa – sobre poemas de Carlos Drummond de Andrade e ilustrações do painel do mesmo nome, 150 p. 2011, com apoio da Lei da Rouanet.

Publicações de sua autoria: Sabará, com Henrique Leal, UNA, 2005; Artesanato brasileiro, Governo de Minas, 2009. Muralismo, 119 p., 2014, com apoio da Lei Rouanet.

Entre seus prêmios se destacam: II Prêmio de Escultura no Salão de Belo Horizonte; I Prêmio de Gravura no XVI Salão de Belo Horizonte; I Prêmio de Desenho TV Itacolomi, entre artistas mineiros; I Prêmio de Ilustração Diário de Notícias, Rio de Janeiro; II Prêmio de Desenho no Salão de Pernambuco; I Prêmio de Gravura no II Salão de Trabalho, São Paulo; Medalha de Ouro no Salão do Paraná; Prêmio de Aquisição no Salão de Porto Alegre; Prêmio Especial Paschoal Carlos Magno no Salão do Pequeno Quadro, Rio de Janeiro; Menção Especial no Salão do Paraná com a equipe Estandarte; I Prêmio de Gravura com a equipe Estandarte no IV Salão de Arte Contemporânea de Belo Horizonte.

 Recebeu como reconhecimento público a Medalha de Ordem do Mérito Legislativo (Assembleia Legislativa de Minas Gerais); Comenda da Inconfidência Mineira (Governo de Minas Gerais); Palma de Ouro (Fundação Clóvis Salgado); Medalha Santos Dumont – Grau Ouro (Governo de Minas); Medalha Professora Lílian Câmara (Agremiação Amigas da Cultura de Montes Claros); e Medalha Israel Pinheiro (Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais).

 Vários troféus, placas e diplomas. Recebeu, em maio de 2010, o título de Mulher do Ano no setor das artes plásticas pela Confederação Nacional de Mulheres, Rio de Janeiro. Recebeu, em 2012, o prêmio de Artista do Ano, pela trajetória, concedido pela Associação Brasileira de Críticos de Arte.

 Tem 105 painéis e murais espalhados por inúmeras cidades brasileiras. Teve 7 murais tombados em novembro de 2009, pelo Patrimônio Histórico e Artístico de Belo Horizonte.  

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