Sala Especial
Cavi Brandão
Abertura
Sábado, 26 de Setembro às 10:00 hs
Exposição
Até 17 de Outubro
Segundas a sextas-feiras das 9 às 18 h
Sábados das 9 às 13 h
Local
Rua Curitiba, 1862, Lourdes, 30170-127
Belo Horizonte/MG
Estacionamento Privativo
+55 (31) 3318-3830
9.9889-1515 | 9.9889-5445
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Biografia Resumida de Cavi Brandão
Cavi Brandão (Itajubá, 1997) vive em Belo Horizonte, onde passou pela Escola Guignard – UEMG em 2019 e se formou em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes (UFMG). Em sua prática, conecta técnicas pictóricas e estéticas digitais para investigar os impactos do ciberespaço, da hiperdigitalização e das novas mídias sobre as formas de percepção, representação e construção de subjetividades.
Interessado pelas falhas, ruídos e pela baixa resolução da imagem digital, explora temas como sexualidade, afetos, dissidência e relações interpessoais, refletindo sobre como essas experiências se reconfiguram em uma contemporaneidade atravessada pelas dinâmicas do ambiente virtual. Em 2023, foi selecionado pelo edital Arte Aqui, realizando sua primeira exposição individual, Em noite de apagão_ reprogramar em baixa resolução, na Galeria da EBA/UFMG, em Belo Horizonte. No mesmo ano, participou de No Fio da Navalha, no Ateliê397, e do 34º Salão Bunkyo de Arte Contemporânea, ambos em São Paulo. Em 2025, participou de Estilingue, na Galeria Albuquerque Contemporânea, e de Máquina/sonho/água, na Galeria Mama/Cadela, ambas em Belo Horizonte. Em 2026, participou de A Coisa Drag, no Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC Niterói), e de Método II, na Casa Camelo, em Belo Horizonte.
A primeira certeza que tive ao ver uma obra de Cavi Brandão é a de que por trás dessas pinturas existe uma pessoa simultaneamente firme e aberta. Seu interesse pela estética digital, mas também pela materialidade tecnológica parece inapropriada à opção do artista pela tinta e o pincel, artifícios dos mais antigos no mundo da arte, mas funciona com tal naturalidade que senti diante de seu trabalho a rara sensação de descobrir algo novo e potente.
Assim como as telas dos videogames, das redes sociais, dos cinemas e das câmeras celulares, as telas de Cavi Brandão mantêm certa plasticidade, conectando-se com o entorno do espectador e alimentando nele, a cada aproximação, um fluxo emocional diferente. O que se passa é a construção e reconstrução de uma paisagem que reflete, no fundo, a identidade de quem a olha, sujeito que através do olhar também a define. Nesse sentido, é bonito acompanhar ao longo dos últimos três anos o avanço da espontaneidade provocada por esse movimento duplo de submeter-se à influência da imagem digital. Dentro das pinturas, vemos crescer o espaço e a complexidade do gesto orgânico e impreciso, sempre enquadrado pela paisagem binária, pixelada, que, ao tentar sobrepor tal gesto, o revela em sua própria arquitetura, entre as frestas das muitas camadas de tinta que o artista cria.
Observando as datas dos trabalhos aqui expostos, rapidamente descobrimos mais do que uma poética borbulhante e inquieta, fundamento de uma trajetória que, embora jovem, já é profícua na arte, mas a abertura de caminhos que não se restringem enquanto seguem em uma mesma direção. Do mundo mais ou menos uniforme na série Paisagens Ciborguianas, onde um pixel de cor surge e nele parece residir toda a deliciosa instabilidade da cena, até o fundo quadriculado que imita o das imagens PNG, recriado na sua linearidade cinza e branca quase perfeita (e o quase aqui é muito importante), onde uma miríade de desenhos e palavras ricamente coloridas e recortadas emergem, propensas a serem inseridas em outros contextos e incorporarem novos significados, o artista investiga um só tema: o erro.
O acúmulo de camadas presente em todos os trabalhos trata, no fundo, de um acúmulo de erros fatalmente encobertos, omitidos, inevitáveis, revelados inicialmente pelas arestas e janelas que Cavi autoriza permanecerem na superfície e, nos trabalhos mais recentes, como Nossas pernas entrelaçadas, os fantasmas esses fios emaranhados, começa a resgatar, corroendo a uniformidade da tinta ao riscar a tela com a ponta de cabos USB, misturando nesse gesto todos os gestos “equivocados” precedentes. Nestes mesmos trabalhos, tanto o fundo que mimetiza o arquivo PNG quanto as grandes zonas monocromáticas são substituídas por uma paisagem arquitetural que em tudo lembra o rigor de uma placa de circuito impresso. Rigor que é invariavelmente interrompido por um vislumbre de organicidade e caos, tão resistente ao circuito quanto por ele enquadrado.
O controle é a chave de trabalho de Cavi. Mas também aquilo de que o artista primeiro abre mão. É evidente a tentativa de organizar a matéria dentro de suas telas. Tentativa que sempre fracassa e, ainda quando parece finalmente de todo encobri-la, ele mesmo aborta em um gesto quase paternal, revelando sob a superfície da tinta, com a raspagem, uma constituição imprevisível, radical.
Talvez então, o fino controle sobre o controle que ele exerce na obra seja o que mais lhe interessa. Quando se impôr? Quando deixar-se controlar pela aleatoriedade da matéria? Do instinto, da química, da memória? É justamente esse embate, tão próprio da contemporaneidade, que suas telas evidenciam e é nele que nos reconhecemos. Confusos seres humanos na era digital.
Luíza Marcolino, 2026